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Gillian Anderson e Hannah Einbinder encaram a tela cobertas de sangue, mas sem perder a pose
Gillian Anderson e Hannah Einbinder, no pôster de Acampamento Miasma

O slasher e o horror queer

Escrito e dirigido por Jane Schoenbrun, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte se tornou um dos grandes sucessos de 2026 no circuito de horror. O filme é um slasher pensado em camadas de metaficção que ora homenageia o subgênero, ora critica e desconstrói seus pontos problemáticos, como o papel que reserva às mulheres e maneira de representar corpos trans.

Para quem não está familiarizado com o termo, slasher é a categoria do horror em que um vilão usando uma arma cortante e perfurante persegue, golpeia e mata o elenco inteiro até que sobre apenas um pingado de sobreviventes, entre eles a “final girl” ou “garota final” que o derrota para que ele possa voltar ao longo da franquia e repetir seu ciclo de obsessão.

Na linha do tempo dos filmes de horror, ser de minoria política significou por anos a fio uma sentença de morte inescapável. Pergunte a pessoas negras e LGBTs a respeito. Para pessoas trans essa sentença vinha com um estigma adicional: a transgeneridade era o traço que definia o elemento monstruoso dos filmes. Psicose, com Norman Bates, é o exemplo clássico. Silêncio dos Inocentes, o que alcançou o status de filme de arte e a estatueta do Oscar. Acampamento Sinistro, referenciado não por acaso no nome de Acampamento Miasma e nas cenas de seu vilão diante do espelho, é outro inescapável nesse debate. A lista é longa e conta inclusive com títulos recentes.

No livro Corpses, Fools and Monsters: The History and Future of Transness in Cinema, Willow Maclay e Caden Gardner comentam que filmes assim foram fundamentais para moldar uma percepção negativa sobre pessoas trans nos Estados Unidos; ficção servindo de referência numa época em que o conhecimento a respeito do assunto não circulava como hoje. Imagine o estrago. A identidade trans, além de sinalizar perigo, reforçava o fato de as personagens não serem exatamente o que pareciam ser.

A doce ironia é que a tentativa de Hollywood de vilanizar vivências e arquétipos LGBTs, fez nós, LGBTs, nos tornarmos fãs de filmes de horror. Mas é possível gostar desses filmes e sem odiar a si mesmo? Entender a problemática da representação e ainda assim ter o humor refinado de abraçar a própria monstruosidade?


A história do filme

Acampamento Miasma acompanha a jornada de Kris Williams (Hannah Einbinder), jovem cineasta contratada por um estúdio para reviver uma franquia slasher que já teve inúmeras continuações e encontrou o esgotamento da sua fórmula. Nas palavras de Schoenbrun a ideia era falar “de como franquias canibalizam a si mesmas e da maneira cínica que Hollywood produz filmes (ou numa tradução mais próxima, tira coisas do c*), recriando-os sem alma, sem contexto político e sem reflexão”.

Logo no início descobrimos o tanto de continuações e renascimentos que a franquia “Acampamento Miasma” chegou a ter antes de oferecerem a Kris Williams a tarefa de ressuscitá-la como produto lucrativo. Uma pilha de fitas VHS nos dá a dimensão do seu sucesso e do seu fracasso.

Uma fileira de fitas VHS mostram todos os Acampamentos Miasma já lançados, num estilo que emita filmes como Sexta-feira 13, entre outros

Para reviver a franquia, Kris tem um plano em mente. Obcecada pelo filme original e por Billy Presley, a final girl, Kris quer convencer a atriz a fazer uma participação na sua versão da história. Há algo no olhar da personagem de Billy no primeiro filme, um desconforto, um pavor, um mistério, com o qual Kris se identifica. Trazer Billy de volta seria como alguém decidir filmar um novo A Hora do Pesadelo e procurar Heather Langenkamp para participar. Algo que o próprio Wes Craven, criador do Freddy Krueger (e do Ghostface), chegou a fazer no filme metalinguístico da franquia.

A questão é que Billy, vivida por Gillian Anderson, já está na casa dos sessenta anos, e o que o estúdio quer é ver alguma novinha ou novinho da vez estrelando a franquia. Querem o nome de Kris Williams para dar ao filme um carimbo de jovem e progressista, o de Billy para dar legitimidade, mas sem conceder a liberdade criativa que Kris gostaria de ter. Como Billy se tornou uma pessoa reclusa depois de filmar Acampamento Miasma, Kris vai atrás dela e a encontra morando num lugar isolado com pinta de espaço liminar e cercado pela neve: o próprio acampamento que serviu de cenário para o massacre do filme original. Por que Billy teria escolhido justo esse lugar para morar? Será que algo no filme original era real? Será que Billy é confiável ou endoidou? O mistério é fundamental para a experiência do espectador e parte da brincadeira, mas no fundo não passa de um reflexo da jornada pessoal da cineasta Kris.

Kris tem um jeito bastante metódico de ver a si e ao seu projeto profissional. Lembra a geração que se entendeu no fluxo vertiginoso de categorizações das redes sociais. Contudo, ficar a sós com o objeto da sua admiração cultuado desde seu despertar queer na adolescência, uma mulher enigmática e sedutora, faz com que Kris vá aprendendo a olhar mais com mais profundidade para si mesma e consiga redescobrir seu desejo.

Tá: tem suspense, tesão, mas e o vilão, cadê?

Nenhum slasher existiria sem seu assassino e Acampamento Miasma não é diferente. Little Death, uma figura de roupa branca com uma cabeça cúbica que parece uma saída de duto de ar-condicionado e que usa um arpão de duas pontas como arma, volta filme após filme para fazer novas vítimas. Seu nome faz referência a la petit mort dos franceses, um jeito poético de se referir ao orgasmo. Nada sutil, mas eficiente para falar de vilões que matam suas vítimas portando objetos fálicos e assim cumprem o rito de violência que o slasher firma com o espectador. Um pacto hiper-realista muito próximo do que é feito no pornô e que permite colocar de pé o tripé repetição x monstruosidade x desejo que sustenta o filme de Jane Schoenbrun.

O personagem Little Death de corpo inteiro ao lado de um close no rosto de Laura Palmer morta
Curiosidade: Laura Palmer morta embrulhada em plástico foi o ponto de partida para o visual do assassino Little Death

Existe uma história de origem para Little Death que não quero contar por inteiro aqui caso você ainda não tenha assistido ao filme, mas saiba que a personagem vivia alguns dias como menino e outros como menina. Ser alguém fora da conformidade de gênero desencadeia reações violentas dos adolescentes do acampamento, o que causa sua morte. Contudo, a personagem encontra um jeito de voltar dos mortos, se torna Little Death e passa a executar seu rito obsessivo de vilão de slasher: vingar-se dos responsáveis pela sua morte e dos futuros ecos dos mesmos. Tomar para si a monstruosidade da qual era acusado liberta Little Death do papel de vítima e permite que ele vire dono da sua própria narrativa e do fundo do lago freudiano ao qual habita.

Jack Haven, que interpreta “Pequena Morte”, falou numa entrevista o quanto a identidade queer mistura a pulsão de vida e de morte representada em Little Death e eu concordo. Para muitos de nós, a história de descoberta do desejo é também uma história de violência. Numa entrevista de divulgação, Schoenbrun comentou da dificuldade de ter uma vida sexual plena antes da transição de gênero e penso que isso ecoa tanto na história de Kris quanto na de Billy, sendo a peça sobre a qual se constrói o clímax da aparição de Little Death. Abraçar a morte simbólica para poder vivenciar a plenitude do próprio desejo.

Citando Paul B. Preciado, o corpo é um arquivo político e o sexo a tecnologia por meio da qual se distribui poder e prazer. Às vezes esse corpo está putaço e segura um arpão de duas pontas.

Citando Paul B. Preciado, o corpo é um arquivo político e o sexo a tecnologia por meio da qual se distribui poder e prazer. Às vezes esse corpo está putaço e segura um arpão de duas pontas.

imagem de perfil do vilão Little Death

Meio horror, meio comédia

A evolução da jornada de Kris ao conviver com Billy afeta diretamente a maneira como Acampamento Miasma é apresentado ao espectador. A atmosfera sufocante de suspense e horror ganha momentos filosóficos, migra para o erotismo e abraça o humor nonsense na reta final. A estratégia me lembrou a maneira como David Lynch costurava o estranho na sua obra sem se preocupar com regras rígidas de gênero. Algo que faz todo sentido ao se pensar o cinema queer.

Jane Schoenbrun falou a respeito dessa escolha para o podcast Filmaker Toolkit, da Indie Wire: “Ser trans é uma das minhas identidades, ser artista é outra. A gente sempre quer ampliar o que se sente livre para fazer. Minha ideia de como construir uma filmografia longa que expresse verdades é nunca permitir que me coloquem numa caixinha — nem mesmo na minha própria cabeça. Não acho que alguém quisesse me ver fazendo uma comédia sexual pastelão depois de ‘Eu vi o brilho da TV’, mas eu precisava fazer”.

E fez mesmo, uma baita baguncinha boa.


Gênero, então.

Teresa de Lauretis, falecida em 2026, foi uma teórica importante da crítica feminista de cinema. Ela cunhou o termo “teoria queer” para uma conferência e apresentou o conceito de “tecnologias de gênero” no livro Technologies of Gender: Essays on Theory, Film, and Fiction, de 1987.

A teórica argumentava que o processo pelo qual representações de gênero são implantadas, promovidas e assimiladas pelos indivíduos como um pensamento próprio é, na verdade, construído por meio de tecnologias de gênero: práticas socioculturais, discursos e instituições (igreja, família, etc).

Em outras palavras, o que lemos como específico de um gênero ou outro seria, na verdade, um processo de construção dado por meio de repetição, pois a repetição faria um discurso inventado parecer natural, ou o único discurso possível.

Para Teresa de Lauretis, o cinema é uma dessas tecnologias de produção de gênero. Ao mostrar a imagem de homem viril, de um herói, ao dizer que papel cabe ou não a uma mulher, ao tratar pessoas queer como corpos cujo único destino é a morte, ao dizer quais corpos violam e quais são violados, o que esse recorte reacionário de cinema faz é tentar firmar uma hierarquia de “poder e prazer” (dá para pensar o mesmo em termos étnicos e raciais).

Nas palavras Paul B. Preciado a partir do pensamento de Teresa de Lauretis: “A questão decisiva não é se uma imagem é uma representação verdadeira ou falsa de uma determinada sexualidade (feminina, masculina ou outra), mas sim quem tem acesso à sala de edição coletiva onde são produzidas as ficções da sexualidade. O que uma imagem nos mostra não é a verdade (ou a falsidade) do retrato, mas o conjunto de convenções visuais e políticas da sociedade que a contempla”.

No início do texto comentei como a repetição era um conceito importante para a crítica de Schoenbrun a Hollywood e aos filmes de slasher, e era aqui que queria chegar. A ponte entre performance de gênero dentro e fora da narrativa ficcional, essa “tecnologia” que é capaz de criar aquilo que finge representar.

Os arquétipos, estruturas de linguagem e demais elementos narrativos presentes no slasher, assim como aqueles presentes na representação de gênero masculino/feminino/outro, são repetidos à exaustão como estratégia de reafirmação. Você vê, você reconhece, você classifica porque já viu antes. Mesmo que não saiba muito bem que antes é esse. Mas, eis a ironia subversiva explorada pelo filme de Jane Schoenbrun: a estratégia da repetição contém em si o esgotamento daquilo que pretende reafirmar.

Judith Butler diz que a paródia do gênero revela que a identidade original sobre a qual se molda tal gênero é uma imitação sem origem. Acampamento Miasma é, no fim das contas, uma paródia. Com e sem original. E ao escrachar em jorros de sangue, armas fálicas, gritos histéricos, peitos balançantes e orgasmos gore sua intenção, ilumina outros destinos possíveis para o horror e para os corpos que o horror se acostumou a representar. Dentro e fora da tela.

Jane Schoenbrun por Philip Romano, da Wikipedia

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