A sirene toca na cidade: são dez horas, obedeçam à lei!
Corram para casa e ouçam o sermão do dia transmitido pelas redes sociais.
Cubram as musas do pescoço às canelas.
Escondam o sexo, desfilem pudores, proíbam o beijo.
Recitem em voz alta as normas da hipocrisia de bem.
Mas enquanto o relógio não vira…
Dancem em passos desengonçados pelas ruas,
Se beijem em cores e combinações infinitas,
Entrelacem os dedos, os corpos e as línguas,
Repudiem sem dó a histeria do ódio,
Gritem a revolução a plenos pulmões.
O apresentador avisa na televisão: são dez horas, obedeçam à lei!
Lubrifiquem a razão com spray de pimenta.
Coreografem a renúncia aos próprios direitos.
Ajoelhem-se e lambam as garras da águia.
Escrevam nas lápides a desculpa da vez.
Mas em cada minuto até lá…
Resgatem o verde e amarelo dos alienados delirantes,
Desnudem ao ar livre a origem do mundo,
Cubram os tijolos de tinta e arte,
Recitem ao sol a poesia mais longa,
Mudem a direção do vento com força do sopro.
A pregação começa na rádio: são dez horas, obedeçam à lei!
Troquem seus cérebros por discursos automatizados.
Cultuem ídolos em mensagens toscas de zap.
Engulam mentiras em velocidade viral.
Mas até um segundo antes…
Ateiem fogo aos caçadores de bruxas,
Passeiem com Darwin no paraíso,
Retornem os mitos ao barro e à lama,
Salvem os livros do meio das chamas,
Leiam em voz alta as páginas flamejantes.
O espantalho sorridente discursa na esplanada: São dez horas, obedeçam à lei!
Comprem as armas em lojas de brinquedo.
Beijem as russas nas festas do banqueiro.
Pisoteiem com botas de borracha as sementes da democracia.
Preguem o justo com a palma estirada na cruz.
Mas até um minuto antes e em cada minuto depois,
Estilhacem preconceitos e vidraças,
Derrubem do trono os tiranos,
Perpetuem no toque o afeto,
Esvaziem as camisinhas das máquinas gratuitas do metrô,
Arranquem do relógio os ponteiros,
Matem o medo de fome.